da Redação
20 maio 2026
André Luiz Petraglia*
No semáforo, a luz amarela é uma advertência de que o caminho irá se fechar. Porém, muitos vemos o sinal amarelo como uma oportunidade de levar vantagem e, ao invés de frear, aceleramos ainda mais. Nossa cultura, que ainda engatinha em muitos aspectos de respeito ao próximo e a nós mesmos, nos oferece certas “permissões” que acabam por invadir o espaço alheio sem muitas punições ou consequências significativas. Em certa ocasião um executivo brasileiro de uma multinacional europeia viajou até sua sede para realizar um estágio. Pela manhã um colega local foi pegá-lo no hotel e juntos seguiram até a grande indústria.
Chegaram cedo e ao entrarem no enorme estacionamento o motorista estacionou o carro no fundo do pátio e os dois caminharam conversando em direção ao prédio principal. O brasileiro ficou intrigado e ao chegar próximo às escadarias não se conteve e comentou: “Chegamos tão cedo e você estacionou tão longe, sendo que poderia ter parado logo aqui, em frente à entrada, escolhendo entre os melhores lugares”. O colega no mesmo instante lembrou-se das diferenças culturais e gentilmente respondeu: “Como chegamos cedo, temos tempo de caminhar até a fábrica. Quem, por acaso, chegar mais tarde ou atrasado por algum motivo, terá menos tempo para caminhar, assim costumamos deixar os lugares mais próximos para que não se atrasem ainda mais”.

Essa lógica é tão lógica que muitos de nós somos capazes de compreender, mas dificilmente assimilamos em nossas atitudes, pois fomos criados à sombra da chamada “Lei de Gerson”, herança do conceito eternizado por uma extinta marca de cigarros em suas mensagens publicitárias, a qual pregava que precisamos levar vantagem em tudo. Essa regra é parte da origem do “jeitinho brasileiro” de onde derivam outros hábitos comuns como deixar o carrinho do supermercado largado pelo pátio, muitas vezes no meio das vagas, inclusive de pessoas com necessidades especiais que, por questões óbvias, não podem descer do veículo para retirá-lo de lá.
Dirigimos falando ao celular, mesmo sabendo da desatenção ao trânsito e os acidentes que isso pode causar, trazendo prejuízos e dores para outras pessoas e para nós mesmos, entre outros inúmeros e tristes exemplos. Já disse o pensador holandês Erasmo de Roterdã: “Não existe nada tão absurdo que o hábito não torne aceitável”. Então, procuremos ser mais atentos aos nossos hábitos para que as consequências de nossas atitudes sejam mais de benefícios do que o contrário, pois quando a responsabilidade é dividida, o sinal passa a ser verde, abrindo passagem para que a ordem, a paz e a nossa própria evolução como indivíduos e sociedade nos tragam tranquilidade e harmonia.
*André Luiz Petraglia é escritor, palestrante e consultor de comunicação e design.
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