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Startup transforma floresta em ativo digital e alternativa ao crédito de carbono

Por Adriana Blak (RJ) O crédito de carbono virou coisa de gente grande. Complexo, cheio de intermediários, com contratos milionários...

Startup transforma floresta em ativo digital e alternativa ao crédito de carbono

Startup transforma floresta em ativo digital e alternativa ao crédito de carbono.

da Redação

11 maio 2026

Por Adriana Blak (RJ)

O crédito de carbono virou coisa de gente grande. Complexo, cheio de intermediários, com contratos milionários e uma linguagem que poucos entendem. Foi isso que levou o empresário Marco Giotto, do Paraná, a criar um atalho: em vez de vender tonelada de gás que ninguém vê, ele vende metro quadrado de floresta que dá para localizar no Google Earth.

“Uma tonelada de carbono continua abstrata para a maioria das pessoas e até para empresas que não são do mercado ambiental”, disse Giotto nesta segunda-feira (11), em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial.

“O crédito de carbono acabou se tornando um produto financeiro mais acessível a grandes empresas e contratos milionários.”

Fundador e CEO da 4Rest Preservation, Giotto tem 25 anos de estrada no mundo dos negócios. Há dois, decidiu juntar tecnologia, mercado financeiro e conservação para resolver um problema simples: como um pequeno empresário compensa o impacto ambiental sem contratar uma consultoria ou entender jargão de bolsa?

A resposta veio em forma de token. Cada token da 4Rest equivale a 1 m² de mata nativa arrendada, mapeada, monitorada e registrada. Custa a partir de R$ 5. O dono do token sabe onde fica a área, pode acompanhar por imagens de satélite e, se quiser, até visitar. “Você sabe exatamente qual espaço está ajudando a preservar”, explica.

Por que não crédito de carbono?

Na prática, o modelo tradicional depende de cálculo de emissões, certificação internacional e venda em lotes de milhares de toneladas. Funciona para indústria pesada e multinacional. Para a padaria da esquina ou a concessionária de motos, não.

“As áreas arrendadas exclusivamente para conservação geram tokens ambientais atrelados que são oferecidos ao mercado como ativos de ESG. Ativos esses com lastros florestais reais, o que nos diferencia das demais soluções até hoje apresentadas que, na sua maioria, são baseadas em créditos de carbono, de difícil entendimento e que limitam sua atuação a grandes projetos e fundamentalmente na Amazônia”, afirma Giotto.

A 4Rest preferiu fugir do óbvio. Em vez da Amazônia, mira Mata Atlântica e Cerrado. Dois motivos: são biomas sob forte pressão e estão perto de onde vive a maioria dos brasileiros. “A Mata Atlântica está diretamente conectada ao cotidiano urbano brasileiro, o que tornaria a preservação mais próxima da realidade das pessoas”, diz.

O dono da terra também ganha

O pulo do gato está no bolso do produtor rural. No modelo da 4Rest, ele não precisa escolher entre preservar e ganhar dinheiro. A “greentech” arrenda a área de mata e paga ao proprietário o equivalente ao que ele receberia se plantasse soja ou criasse boi ali.

“Empresas e pequenos investidores podem adquirir tokens correspondentes a frações de florestas, democratizando o processo de conservação”, diz Giotto. “Assim, um hectare que poderia ser utilizado para agricultura passa a gerar renda equivalente apenas por ser mantido intacto”, explicou.

Ou seja: preservar deixa de ser prejuízo. O manejo, o monitoramento e a segurança da área ficam por conta da 4Rest, com gestão de campo do Instituto Biosistêmico, tecnologia da CodeSign e compliance da FBC Consultoria Jurídica.

VEJA AQUI VÍDEOS DOS PROJETOS DE PRESERVAÇÃO DA 4REST PRESERVATION:

Moto vende, árvore fica em pé

A tese saiu do papel e foi parar no showroom. A Cabral Motor, concessionária Honda de Curitiba, aderiu ao projeto há dez meses. A conta é simples: para cada motocicleta vendida, 1 m² de Mata Atlântica de Araucárias é neutralizado na Fazenda Capão Seco, em Palmas, no Paraná.

Já são 7 mil metros quadrados garantidos. A concessionária vende cerca de 700 motos por mês.

Para Alexandre Mainetti, diretor da Cabral, a ideia nasceu da vontade de fazer algo concreto e fácil de explicar ao cliente. “O projeto surgiu da necessidade de contribuir com o meio ambiente de forma concreta e de fácil compreensão para o consumidor, permitindo que ele saiba que está, de fato, colaborando para a preservação ambiental por meio da metragem real de floresta vinculada à sua motocicleta”, conta.

A Cabral não repassa o custo. Entra como investimento em ESG e argumento de venda. O cliente leva a moto e o certificado digital do seu metro quadrado.

Como funciona, na prática

A 4Rest arrenda a floresta, emite um token para cada m² e coloca na plataforma. Qualquer pessoa ou empresa compra, escolhe o projeto e guarda o ativo numa conta digital. Os tokens têm validade definida por lote, porque existe custo contínuo de monitoramento. Funciona como um condomínio.

Hoje, dois projetos estão ativos. A Fazenda Capão Seco tem 770 hectares no total, sendo 307 hectares de nascentes e mata nativa de araucárias preservadas. O outro é o Conexão Mata Atlântica, em São Paulo, na zona de amortecimento do Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo Itariru.

Os tokens são transferíveis entre usuários da plataforma. Em breve, poderão migrar para outras carteiras de ativos digitais. Não é criptomoeda. É a representação digital de um pedaço de chão com árvore em pé.

O tamanho do problema

O desafio é transformar compensação ambiental em algo que caiba no orçamento de quem não é gigante. O crédito de carbono tradicional exige escala, auditoria cara e contratos longos. O token de 1 m² tenta quebrar essa barreira.

“A tangibilidade que um m² de floresta preservada traz, somada à praticidade da ferramenta operacional, permite que a solução da 4Rest possa ser implementada em qualquer escala e com baixíssimo custo operacional”, diz Giotto.

Na ponta do lápis, a conta fecha para os dois lados. O produtor recebe para não desmatar. A empresa neutraliza parte do impacto e ganha narrativa de ESG. O consumidor entende o que está pagando. E a floresta, pelo menos aquele metro quadrado, continua lá.

Se vai escalar, o mercado dirá. Por enquanto, 7 mil m² de araucárias no Paraná já não viraram lenha.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Adriana Blak – Por que o crédito de carbono tradicional não resolve o problema do pequeno e médio empresário?

Marco Giotto – Bom, o crédito de carbono surgiu há muitos anos como uma iniciativa importante para trazer consciência sobre os impactos ambientais e colocar esse tema no centro das discussões. E isso teve um papel muito positivo.

Porém, do ponto de vista operacional, o modelo tradicional ainda enfrenta muitas dificuldades para se tornar realmente acessível e compreensível para a maioria das pessoas.

Hoje, por exemplo, é muito difícil para alguém que não seja especialista entender o que significa uma tonelada de carbono. E o senso comum precisa compreender aquilo que está fazendo para conseguir aderir de verdade.

Na prática, o crédito de carbono acabou se tornando um produto financeiro mais acessível a grandes empresas e contratos milionários. O cidadão comum praticamente não consegue participar disso de forma simples, e as pequenas e médias empresas também encontram dificuldade para mostrar aos seus clientes, parceiros e stakeholders o impacto positivo que estão gerando.

Isso acontece porque falta tangibilidade. O carbono ainda é algo abstrato. Se alguém fechar os olhos e tentar imaginar uma tonelada de carbono, dificilmente conseguirá visualizar.

Por isso, o carbono precisa ser mais tangível, mais claro e mais acessível para que as pessoas e as empresas realmente consigam se conectar com essa transformação.

Adriana Blak – Qual é a diferença prática entre comprar crédito de carbono e comprar um metro quadrado de floresta com a Forest?

Marco Giotto – Primeiro, existe uma grande diferença na simplicidade do processo e no entendimento dele.

Quando você adquire um token de um metro quadrado de Mata Atlântica da Forest — ou de outro bioma, como o Cerrado — você tem segurança, rastreabilidade e transparência sobre aquilo que está adquirindo.

Esse token está vinculado a um metro quadrado real, de uma área conhecida, digitalizada, monitorada e documentada. A qualquer momento, você pode acessar as informações da área, verificar sua localização e, inclusive, visitá-la. Ou seja, você sabe exatamente qual espaço está ajudando a preservar.

No crédito de carbono tradicional, essa rastreabilidade e acessibilidade são muito mais difíceis. Grande parte dos projetos está localizada em áreas remotas da Amazônia, e o crédito acaba sendo algo extremamente abstrato para quem compra.

Na prática, muitas vezes você não consegue visualizar onde está aquele crédito, entender exatamente o impacto gerado ou até acessar fisicamente a área do projeto. Isso acontece tanto pela intangibilidade do próprio crédito quanto pela complexidade operacional desses projetos.

Já os projetos da Forest trabalham com áreas menores, especialmente em regiões fragmentadas da Mata Atlântica, permitindo acompanhamento total da área, documentação completa, monitoramento contínuo e até possibilidade de visitação.

Isso torna a preservação muito mais tangível, transparente e próxima das pessoas e das empresas.

Adriana Blak – Por que vocês escolheram atuar na Mata Atlântica e no Cerrado, e não na Amazônia?

Marco Giotto – Hoje, a Amazônia se tornou um tema global, muito discutido e muito presente no debate ambiental. Todos os olhos estão voltados para ela.

Mas, quando olhamos para os índices de vulnerabilidade e pressão ambiental, a Mata Atlântica e o Cerrado sofrem impactos extremamente severos e, em muitos casos, apresentam taxas de desmatamento proporcionalmente maiores.

Além disso, a Mata Atlântica está diretamente ligada ao nosso cotidiano. Ela está ao redor das áreas urbanas, praticamente na janela das pessoas. Grande parte das cidades brasileiras foi construída dentro do bioma da Mata Atlântica, de norte a sul do país.

E, mesmo convivendo com ela diariamente, muitas vezes as pessoas olham apenas para a Amazônia e esquecem o que está acontecendo ao lado de casa.

Por isso, a proposta foi trazer a discussão ambiental para mais perto das pessoas, tornando a preservação mais tangível e conectada à realidade delas. Assim como o token representa uma área real e acessível, a Mata Atlântica também faz parte da vida cotidiana de milhões de brasileiros.

Se queremos melhorar o mundo, talvez faça sentido começar pelo que está mais próximo de nós.

Adriana Blak – Agora, o token de um metro quadrado é simbólico ou ele realmente impede o desmatamento daquela área?

Marco Giotto – O token não é simbólico. Ele funciona como um documento digital que representa um metro quadrado real de uma área preservada.

Essa área é previamente documentada, registrada, digitalizada e monitorada dentro de uma plataforma tecnológica baseada em blockchain — uma tecnologia reconhecida justamente pela segurança e rastreabilidade das informações.

Na prática, cada área negociada com os proprietários é mapeada e fragmentada digitalmente. Depois disso, cada metro quadrado recebe uma identidade própria vinculada a um token específico.

Ou seja, o token está diretamente conectado a uma área física existente, monitorada e comprovada documentalmente. Não é apenas uma representação abstrata: ele corresponde a um espaço real de floresta preservada.

Adriana Blak – Como é que o proprietário rural ganha mais preservando do que desmatando nesse modelo?

Marco Giotto – Talvez aí esteja o ponto central, que também explica a origem da nossa empresa. A Forest nasce justamente da percepção de que existe um caminho mais prático para mudar a forma como lidamos com a conservação ambiental.

Hoje, o proprietário de uma área ambiental não recebe remuneração por preservar. Em muitos casos, ele é simplesmente obrigado a manter a vegetação nativa. Por exemplo, fora da Amazônia, na Mata Atlântica, há regras que exigem a manutenção de uma parte da propriedade como área de conservação.

Na prática, isso significa que o produtor rural — que também é um empresário — precisa destinar uma parte da sua terra à preservação, enquanto outros setores da economia não têm essa mesma obrigação direta.

Essa é uma distorção: a responsabilidade ambiental acaba recaindo quase exclusivamente sobre o produtor rural, mesmo sendo um benefício coletivo.

O que a Forest faz é atuar nesse ponto. A empresa identifica áreas remanescentes de Mata Atlântica, negocia com os proprietários e arrenda essas áreas — uma prática comum no meio rural. Ou seja, a área passa a ser alugada exclusivamente para conservação, sem nenhuma atividade produtiva ou exploratória.

A remuneração paga ao proprietário é calculada com base no potencial econômico que aquela terra teria se fosse utilizada produtivamente, por exemplo, com soja, milho ou café.

Dessa forma, o proprietário não perde economicamente ao preservar. Pelo contrário: ele passa a receber pela preservação um valor equivalente ao que receberia se explorasse a terra da forma mais lucrativa possível.

Isso remove o incentivo econômico ao desmatamento, porque o produtor não precisa mais escolher entre preservar e sobreviver financeiramente — ele já está sendo remunerado pelo máximo potencial econômico daquela área, só que com a floresta em pé.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

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